Você ama seu filho ou apenas cuida dele?

by - abril 01, 2020

O texto abaixo é de autoria do P.h.D Paulo Vieira, e é um trecho retirado do livro O poder da ação. Muitas vezes achamos que amamos os nossos filhos por dar coisas, mas a história real que Vieira conta mostra que não é bem assim. Leia e reflita.

Lembro-me de um caso em que um empresário levou seu filho adolescente para uma palestra motivacional de vendas que eu ia ministrar na sua empresa, pois acreditava que eu poderia “dar um jeito” no garoto problemático. Em determinado momento durante a palestra, pedi que as quatrocentas pessoas no auditório formassem duplas e se olhassem nos olhos, dissessem algo positivo ao colega e depois se abraçassem. Superado os primeiros momentos de vergonha, cada dupla foi entrando no clima e cumprindo a tarefa. Contudo, no meu lado esquerdo, bem na frente do palco na primeira fileira, estava o dono da empresa e seu filho. Quando olhei para eles, o pai estava segurando os ombros do filho e dizendo exatamente assim: “Filho, você é o meu orgulho, meu filho mais velho, o meu sucessor. Eu te amo”. Nesse momento o filho olhou para o pai com uma cara de riso, tentando avaliar se ele estava falando sério ou se aquela declaração de amor era uma brincadeira ou um roteiro bem ensaiado. Vendo o filho levar na brincadeira aquele momento, o pai reforçou sua posição e sua declaração de amor dizendo: “Filho, é sério. Você é meu filho mais velho, o que gosta de números como eu. O filho que se parece comigo em tudo. Filho, você é o meu herói. Eu te amo”. Em seguida o pai, cumprindo os passos que eu ordenara, envolveu seu filho com um abraço. Nesse momento vi a face e o semblante do jovem de 14 anos mudar. Ele ficou vermelho, fez uma cara que misturava raiva e tristeza, bruscamente se afastou do abraço do pai e começou a falar alto repetindo: “Por que pai, por quê?” O pai, sem entender nada e completamente angustiado com o choro sofrido do filho, questionou: “Por quê o que, filho? Não estou te entendendo. Estou dizendo que te amo”. E o garoto, ainda se mantendo afastado, volta a indagar o pai: “Por que pai, por quê?” O pai sem entender volta a falar: “O que você quer dizer, filho?” E, com a voz ainda mais alta, o filho revelou: “Por que tive de esperar 14 anos para ouvir seus elogios e que você me ama? Por quê?” E antes que o pai respondesse, o filho continuou: “Pai, eu já fui para o quadro de honra do colégio e já fui expulso. Já tirei dez e já tirei zero. Já fui atleta campeão e não fiz nenhum esporte. Eu já bati e já apanhei. Eu fiz tudo o que você queria e fiz tudo ao contrário. E só o que eu queria era ouvir você dizer: eu te amo”. O pai, na sua angústia, respondeu ao filho que daquele momento em diante ia dizer que o amava. E repetiu mais duas vezes: “Filho, eu te amo. Filho, eu te amo”. Ao que o filho, sentando-se e envolto em lágrimas,  disse: “Pai, você não sabe de nada. E eu não tenho mais tempo. Acabou para mim”. Desesperadamente, o pai tentou retrucar e dizer que ele tinha apenas 14 anos e tinha todo o tempo do mundo. Ao que o filho respondeu com um ar duro e rancoroso: “Você nunca me amou; você ama seus charutos, seus vinhos, suas motocicletas, isso é o que você ama”. E continuou sentado, chorando com a cabeça entre as pernas, enquanto todo o auditório via o sofrimento dos dois.
No dia seguinte, aquele empresário me procurou com seu filho, pedindo que eu fizesse coaching com o garoto. De forma bem direta eu disse que até poderia fazer coaching com o filho, mas era ele o canal de mudança. Sem entender ele perguntou por que ele, uma vez que era o filho que estava com problemas. Tive então de explicar que o que o filho estava passando era pela dificuldade dele em comunicar amor em atos, palavras e ações, uma disfunção causada pela ausência do estilo linguístico de amor. Ao que ele me respondeu com uma frase feita tão antiga quanto idiota: “Mas eu nunca deixei faltar nada para ele: comida, roupa, colégio, passeio etc.”. Sem me segurar eu disse uma das minhas frases célebres: “De carro, motocicleta, cavalo, o dono cuida. Contudo, filho o pai ama”. E continuei: “Cuidar do seu filho é apenas uma obrigação imposta pela lei. Contudo, amar seu filho é prepará-lo para ser forte, livre e feliz no futuro, e isso é mérito de um pai e de uma mãe sábios”. E fui ainda mais direto: “Se você ainda não entendeu, quando seu filho lhe disse que não tinha mais tempo, é porque ele está viciado em crack”. O pai ficou branco, depois vermelho e, com uma expressão de espanto, sentou-se. E perguntou: “Mas por quê, se nunca faltou nada para ele?” Para lhe responder, repeti as mesmas palavras que o filho havia me dito: “Lá, os caras batem no meu ombro e dizem que eu sou fera. Lá eles dizem que sou forte. Lá eu me sinto importante e elogiado. Quando eu chego lá, eles param o que estão fazendo para ficar comigo. Eu os ensino a jogar Playstation e basquete. Lá, todos têm tempo para mim”.
De fato, aquele pai não amava seu filho; ele cuidava, provia o sustento e até o luxo, mas não comunicava amor em atos, palavras e ações, não participava e não mostrava o valor que aquele jovem tinha. Um ser humano sem amor na quantidade e na qualidade certas é como uma planta sem água e luz: seu desenvolvimento jamais será pleno. 
Durante o processo de coaching, o pai aprendeu novos estilos e padrões linguísticos. Ele refez seu casamento, mudou sua maneira de gerenciar sua empresa, mas sobretudo usou seu novo estilo de comunicar para resgatar o filho das drogas. Hoje, seis anos depois, o jovem está no segundo ano de Engenharia e a empresa do pai dobrou de tamanho, mas a maior mudança é a capacidade dele de comunicar amor às pessoas certas e de maneira intensa e verdadeira.

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